BRASÍLIA-BUENOS AIRES DE CARRO

 

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Prezado Abreu,
Obrigado pela boa vontade e pelo serviço de sobrevivência nas nossas estradas dado pelo seu blog. Fui repórter-pesquisador do Guia 4 Rodas nos anos 70, sei o trabalho que dá atualizar as informações – o que dignifica ainda mais o seu blog.
Vou fazer Brasília-Trancoso (BA) e encontrei aqui informação essencial para eu planejar a viagem. Muito obrigado.

Comentário postado em 19/08/2017 as 13:41 por Alceu Simões Nader

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(O espaço para comentários a esta matéria encontra-se ao final dela, após o último dos comentários).

Brasília-Uberaba-Curitiba-Blumenau-Porto Alegre-Chuí-Punta del Este-Montevidéu-Colonia del Sacramento-Buenos Aires: este é o nome do desafio!

   É isso mesmo: amanhã, às 10h00, estaremos partindo de Brasília com destino a Buenos Aires. Minha veterana navegadora há 35 anos  (Ivanizes), Breno  ( meu filho mais velho), Joanna (esposa do Breno) e eu formamos a tripulação do Azera 2010, da Hyundai. Já está quase tudo pronto. A ultima providência – a Carta Verde – só será emitida nos próximos minutos. Aliás, é fantástico o desconhecimento dos bancos e seguradoras a respeito desse documento – uma apólice de seguro contra terceiros exigida para se entrar de carro no Mercosul.

   Perturbamos tanta gente, perseguimos gerentes de banco, corretores de seguro e outros atores que, afinal, conseguimos!

   São 23h00 e a Carta Verde está em minha mão. Curitiba, Floripa, Porto Alegre, Punta, Montevidéu e BA: estamos indo!!!

Edimar Rodrigues de Abreu – 28.06.2012

De Uberaba(MG)

   Como planejado, saímos de Brasília hoje, às 11h30min da madrugada, em direção a Buenos Aires, Argentina. Alguns haverá que se perguntarão: sair às 11h da manhã? Por quê?

    Porque, se sairmos às 6h00, ao final do dia estaríamos no epicentro do congestionamento paulistano, lá no Rodoanel. E se tentarmos pernoitar por lá, principalmente em Embu das Artes, a coisa fica feia: a área é perigosa e as vagas em hoteis e pousadas são extremamente raras ao final do dia.

    Daí planejarmos sair de Brasília por volta do meio-dia, pernoitar no triângulo mineiro (400/500km) e, no dia seguinte, atravessarmos o Rodoanel antes do meio dia de sábado, no contrafluxo do congestionamento.

    No momento, estamos em Uberaba, aonde chegamos às 18h00, após percorrermos 540 km. A saída de Brasília foi – pasmem – tranquila, sem congestionamentos ou bloqueios por acidentes tão naturais entre o Catetinho e Luziânia.

    O trecho Luziânia-Cristalina, também tradicionalmente o terror dos viajantes em férias, pela multiplicidade de buracos, centenas de caminhões por metro quadrado, velocidade média de 20 km/h, a pista simples de mão dupla e noventa por cento dos veículos buscando o alívio de trafegar pelo acostamento menos esburacado do que a pista de rolamento, apresentou-se uma via calma, sem estresse.

    O motivo? Acabaram-se os buracos. Simplesmente sumiram. A estrada está com a cara que nós, motoristas-contribuintes, merecemos. Não registrei um único buraco ou irregularidade que representasse perigo. Nossa velocidade média foi de 85 km/h e o tráfego não tinha nada a ver com o inferno de experiências anteriores. Claro que a facilidade do tráfego decorre da condição da via. Acompanhar um caminhão que anda a 90 km/h, como fizemos hoje, é totalmente diferente de acompanhar um caminhão a 12 km/h, como nos ocorreu na última vez que por aqui passamos.

    Lembramos aos nossos “sputniks” (companheiros de viagem, em russo) que nos acompanham há mais tempo, que, conforme registrado em nosso post “Rodovias Brasileiras: Brasília-Florionápolis”, neste mesmo blog (www.expressaodaliberdade.com.br), o estado desta estrada era tão ruim, que optamos por dar a volta por Goiânia (com a inestimável ajuda do radioamador PY4PY-Pacheco)  para chegar a Uberlândia.

    De Catalão para Araguari (cerca de 60 km), a situação muda um pouco. Há um trecho em que o asfalto está irrepreensível e no outro está em obras, para duplicação. Mas as obras não atrapalham quase nada a nossa velocidade média de 85 km/h.

    Agora, afirmamos: podem vir pela BR 040/BR 50 para Catalão-Araguari-Uberlândia, que esse trecho passou pelo teste do nosso blog.

     Aproximando-nos de Uberlândia, sentimos na pele a velha rivalidade entre as duas cidades, tão presente em Ceres/Rialma ou Juazeiro/Petrolina: o trevo que leva o tráfego diretamente para Uberaba, sem necessidade de atravessar Uberlândia, é um desafio, quase um game, dada a falta de sinalização. A impressão que  a gente tem é de que Uberaba, como o Acre, não existe! Depois de errarmos o caminho duas vezes, aproamos para Uberaba.

     E aí, a coisa se consolida: uma estrada excelente, quase uma amostra grátis da Anhanguera.     Nem vimos o tempo passar, conversando coisas e histórias de Minas (sou mineiro). De repente, o outdoor anunciando o nosso hotel (Dan Inn) a 2 km à frente.

    Cá estamos. Bom estacionamento, perto da rodovia, mas não tão perto (50 metros). O Dan Inn é integrante da antiga rede Shelton Hoteis reciclada, internet wi-fi gratuita, restaurante muito bom, com o velho problema de Minas (bife bem passado significa negro, ao ponto significa pardo, mal passado significa cinza).

    Recomendamos. Diárias entre $ 98,00 e R$ 200,00. Amanhã a gente se fala outra vez.

                                  (Edimar Rodrigues de Abreu – 29.06.2012)

 De Curitiba-São José dos Pinhais

     Hoje é 30.06.2012, 18h00.  Estamos nas imediações de Curitiba(PR), mais exatamente no Hotel Ibis-Aeroporto, aeroporto de Curitiba esse que se localiza em São José dos Pinhais. Daqui, sairemos direto para Blumenau, através da BR-376, que depois vira BR101.

     Saímos de Uberaba às 08h00. O café do hotel Dan Inn, razoável, ficou devendo o tradicional bacon em hoteis dessa categoria. O atendimento do hotel é muito bom, os funcionários são prestativos e cordiais. Como temos o costume de tomar banho de manhã, antes de viajar, só hoje descobrimos que: a) a banheira é encardida, as toalhas não são boas – minha nora ralou o cotovelo ao se enxugar  com a toalha – e o papel higiênico poderia ser muuuuito melhor! Meu filho o comparou com uma lixa dágua, mas eu disse que ele estava exagerando.

     Viajar de Uberaba a São Paulo é como ir de Nova Iorque a Filadélfia: ninguém comenta essas coisas chamadas estradas. Não existe nada a criticar ou a sugerir. Aquele pedaço rodoviário do Brasil vale cada centavo do pedágio que a gente paga.

   Já de São Paulo a Curitiba, o problema é mais complicado. A saída do rodoanel paulista exige certa atenção, mas nada radical. Agora, o trecho conhecido como Serra do Cafezal é coisa para profissional. Vi coisas e riscos que nunca achei que  iria ver. Paciência, paciência, PACIÊNCIA: essa é a tecnologia mais avançada de sobrevivência naquele trecho.

Essa fumaça não é óleo diesel, não: são as lonas de freio em chamas do caminhão, que teve que parar mais adiante.

     Vencida a etapa da paciência – cerca de 40 km a partir do ínicio da Serra do Cafezal –  é só alegria.  Rapidamente estamos passando por Registro, utilizando uma maravilhosa unidade da rede Graal e contornando o cenário fantástico das montanhas da divisa SP-PR, em conjunto com as águas da Reserva Ecológica de Guaraqueçaba.

      A partir daí, é esquecer da tentadora entrada para Curitiba, seguir para São José dos Pinhais, pegar a rodovia BR376 e se enfiar no hotel, depois de 900 km bem rodados.

      Amanhã a vida (e este texto) continuará, com certeza.

                                                 Edimar Rodrigues de Abreu – 30.06.2012                          

De Blumenau(SC)

    O café da manhã do Hotel Ibis-Aeroporto é simples, honesto e muito bom. O pessoal atende de uma forma irrepreensível e nada funciona errado. É o padrão Ibis. Absolutamente regular e preciso. Tão preciso e regular que já acordamos em Bruxelas e achávamos que estávamos em Paris, despertamos em Londres e pensávamos estar em São Paulo.O mesmo aconteceu em  Amsterdam e São José dos Pinhais, nas imediações de Curitiba. Os hotéis Ibis são praticamente idênticos.

     É o típico hotel em que você paga para não ter surpresa. Nem para mais, nem para menos. A rede Ibis, da Accor,  é a mesma em qualquer lugar do mundo.

     Caímos na estrada para Blumenau. Comentários? Venha aqui e veja: é primeiro mundo, mano! Estrada duplicada, sinalização total. Aparentemente, é impossível morrer nessas estradas, a não ser que você seja atropelado pela estupidez humana.

     E aquelas montanhas gigantescas, as curvas das descidas, o pessoal de motocicleta CBR 1000 quase arrastando os joelhos nas voltas e reviravoltas das serras, as lojinhas de cristais Hering, de toalhas Karsten e de jaquetas de couro a R 49,00 fazem a festa para os nossos olhos.

     É domingo. O programa de GPS nos entrega na frente do hotel. Blumenau Plaza Hotel. Simpatia pura. O chefe de recepção já nos recebe com um largo sorriso, entregando o “bombom” que meu filho ganhou no Foursquare: dois segundos chopes! Ou seja, o primeiro você tem de pagar!

      E para nós, eu e Ivanizes, os babacas que não entendem nada de Foursquare, o simpático chefe faz uma cortesia e oferece duas caipirinhas por conta do hotel. Absolutamente chique, tremendamente profissional o pessoal desse hotel. Acho que vamos comprá-lo só para nós…

      Estando em Blumenau, muito bem acomodados, vem a dúvida: almoço ou jantar? Almoço. Onde? Frohsinn, comida alemã, aqui pertinho. Dá para ir a pé. Fomos e chegamos. Chegamos a uma rua onde uma pequena escada de concreto apontava para o céu. Quatrocentos milhões de degraus!!! Olhamos aquilo e descobrimos nossa infame pequenez humana. É impossível chegar lá, ao paraíso da comida alemã em Blumenau.

     Dois motoristas de táxi resolveram o problema, contornando o morro e, numa subida digna de montanhistas alpinos, entregaram-nos, no topo da montanha, ao Frohsinn. Em alemão, significa alegria. Em português, significa alegria. Em gastronomês, significa alegria.

     Pelo amor de Deus: nunca vimos nada assim, num lugar assim, com um sabor assim, com um cheiro assim, com um atendimento assim e com um visual assim! Foi uma tempestade de sabores, onde se mesclavam o Eisbein, o Marreco Recheado, o Kassler, o Apfelstrudel, salsichões, salsichinhas,  a cerveja artesanal Das Bier da cidade de Gaspar ali pertinho.

     Nossos motoristas de táxis nos resgataram daquele paraíso e nos trouxeram para o Blumenau Plaza, onde nos despedimos do dia saboreando, no restaurante Terrace, as fantásticas sopinhas (cebola, palmito, etc.) e um marreco indescritível!

     Dormimos. O meu pessoal acordou às 9 da madrugada, achou o café da manhã do hotel simplesmente adorável, o lojão da  Hering baratíssimo e os catarinenses simpaticíssimos. Voltaram para o hotel e me acordaram para irmos à Vila Germânica, onde ocorre anualmente a Oktoberfest.

     De novo provamos todas as cervejas disponíveis e todas as salsichas possíveis no Alemão da Batata. Dali fomos para o Museu da Cerveja, de onde, com a boca cheia dágua, corremos para o Express, ali do lado, e experimentamos o cardápio de chopes e cervejas artesanais. O pessoal foi dormir às 20h30 da tarde e eu fui experimentar o prato-destaque do hotel – um inacreditável manjar dos deuses camuflado sob o nome de “picanha suína à brasileira”. Indescritível, inimaginável, incrível!

     Agora é hora de dormir, porque amanhã tem o litoral catarinense e gaúcho e Porto Alegre. Vamos lá.

                          Edimar Rodrigues de Abreu-02.07.2012

De Porto Alegre(RS)

      Dormimos após darmos um conferida final no restaurante do Blumenau Plaza Hotel. Irrepreensível. Julho tem como prato de destaque mensal a “Picanha suína à  brasileira”. Umas pitadinhas de farofa para justificar o “à brasileira” e um show de sabor absolutamente maravilhoso construído pelo chef do hotel.

      Pela manhã, depois de conferir a permanência do nível de qualidade do café da manhã, pé na estrada. Retomamos a BR 101 na altura de Itajaí e daí colocamos a proa para o sul. Estrada de pista dupla, pedágios de valor razoável, algumas obras na altura da saída para Lajes,em Santa Catarina, trânsito tranquilo.

Nesse trecho, o Breno nos convenceu a assinar o Via Fácil. É o seguinte: você assina um contrato – lá na praça de pedágio mesmo – e autoriza o débito em conta de todos os pedágios por onde você passar. Os caras instalam um aparelhinho no seu carro e todas as praças de pedágio do Brasil te reconhecem à distância: “-Olhe, aquele é o Abreu. Deixa passar direto”.  O sistema cobra uma mensalidade de R$ 16,00, independentemente de você passar ou não pelos pedágios. Inicialmente, achei que era um desperdício. Depois, descobri a delícia que são aqueles portões à direita da praça do pedágio, onde você passa direto, enquanto os mortais comuns estão lá na fila do pagamento. 

      Seis horas depois estávamos estacionando no Novotel Aeroporto, em Porto Alegre,  onde pernoitaremos. O céu está cinzento e a temperatura caiu para cerca de 8 graus. A cidade promete frio na madrugada. Levamos nossa fome para passear no restaurante do hotel. Os quatro pratos pedidos dividiram-se em dois grupos: dois sensacionais e dois que “não são lá essas coisas”.

       Em função do frio que se anuncia, abrimos mão da cerveja e optamos por vinho. Abrimos um gauchíssimo Miolo Pinot Noir. Valeu cada real.

      O meu pessoal está capotado. São 20h00 e já está todo mundo dormindo. É que amanhã planejamos atravessar a fronteira com o Uruguai, lá no Arroio Chuí (repetindo a travessia que fizemos há 30 anos, quando este meu filho mais velho, que hoje dirige para nós, estava com 2 anos, no banco de trás da Belina II 1980!).

     Vai ser um momento histórico quando revisitarmos aquele último pedacinho meridional do Brasil tanto tempo depois. Voltaremos a falar amanhã, a partir de Punta del Este, República Oriental do Uruguai.

                                            Edimar Rodrigues de Abreu – 03.07.2012

De Punta del Este.

Fronteira Brasil-Uruguai na cidade de Chuí

 

    Opaaaa! Ficamos três dias fora do ar. Na hora que a gente atravessa a fronteira, não é só o idioma que muda. Muda o que você vê na tv do hotel,  mudam as placas de publicidade. Já vivemos algumas vezes essa mudança, mas de uma forma diferente: você pega um avião, viaja 8, 10 ou 12 horas e chega em um outro país. De carro, é totalmente diferente. Já muito antes da fronteira, você vê as coisas se modificando a cada quilômetro rodado: a vegetação se altera, os bois e cavalos mudam o padrão e a raça, a arquitetura das casas das cidades e, principalmente, das casas de fazenda mostram uma alteração clara, visível. Cada quilômetro rodado é uma revelação, uma informação nova. 

     Saímos de Porto Alegre depois do café da manhã, dispostos a dormir no extremo sul do Brasil, na cidade de Chuí. São 542 km de estrada de pista simples, quase sem tráfego (BR116), mas pedagiada. Claro que nos perguntamos por que motivo uma estrada de mão dupla era pedagiada. A resposta veio com a conservação. .

     Fora um trechinho entre a cidade de Cristal (após Pelotas) e a Reserva do Taim, onde uns buracos absolutamente fora de contexto deram o ar de sua presença, o restante é bem conservado, com grandes estirões bem sinalizados e baixo tráfego. 

     O nosso maior problema não foi o estado das rodovias, mas o espetáculo que encontramos ao passar pela Reserva Ecológica do Taim: apesar dos visíveis esforços dos órgãos governamentais e ONGS em proteger a fauna – inclusive com uma cerca especial caríssima dos dois lados da estrada -, os animais invadem a pista e o que nos resta é registrar uma mortandade triste de 15 km de cadáveres de antas, capivaras, pacas e preguiças .Contamos 17 deles. Choramos.

     Enveredamos por esses campos do Rio Grande, olhando os arroios, as pastagens, as casas de fazenda e, de repente, acabou o Brasil. Estávamos em Chuí, uma doce cidadezinha com dois sabores: Brasil e Uruguai.

     E aí voltamos à questão: quando se atravessa um fronteira, o problema não é só o idioma. Despedimo-nos da gastronomia brasileira na Churrascaria Spetus, no lado brasileiro da rua,  com direito a arroz, feijão, farofa e cerveja Skol e Antártica. E do lado de lá também nossa operadora, a TIM. O sistema de roaming da TIM, que sempre foi excelente, não funcionou. Passamos a fazer voo cego (e mudo) até voltar para o Brasil.

      Visitamos, do outro lado da rua, ou seja, em Chuy,  os free-shops. Ah, aqui eles são muitos. São lojas uruguaias, sem imposto, onde os preços dos produtos, para nós, brasileiros, são incríveis. Uma calça Diesel, que custa R$ 1300,00 em São Paulo e R$ 1800,00 em Brasília, aqui meu filho comprou por US$ 170,00, ou seja, algo em torno de R$ 340,00.

     Um problema: só se pode sair do Brasil por aqui com 300 dólares por pessoa. Como vamos a Buenos Aires e voltaremos pelo mesmo caminho, a prudência determina  que reduzamos o consumismo. Foi o que aconteceu. 

 O hotel – Bertelli – é o melhor da cidade. Mas poderia ser um pouquinho melhor. Dormimos razoavelmente bem, café da manhã e pé na estrada. RUTA NUEVE (Rota 9) para Montevidéu. 

     Duzentos e poucos quilômetros depois, de paisagens maravilhosas, banhados, asfalto honesto, bem conservado e pedágio aceitável, chegamos a Punta Del Este. Amanhã tem mais.

Cidade de Maldonado, a meio caminho de Punta del Este. A rodovia Chuy Punta é irrepreensível. As cidades, não.

                                           Edimar Rodrigues de Abreu – 06.07.2012

De Montevidéu

     Parece inacreditável, mas há momentos em que tudo parece conspirar contra você. No exato momento em que entramos em território uruguaio, a nossa operadora TIM saiu do ar e até hoje não voltou. E olhem que a TIM é considerada uma das melhores operadoras em roaming quando a gente está fora do Brasil. Já levei um celular da TIM enquanto fazia um giro pela Europa e sempre parecia que estava em casa.

     Sem a TIM, tentei valer-me de uma mania que tenho: sempre ando com um celular ativo e carregado no porta-malas (o Celestino-Celular Clandestino), para a eventualidade de um sequestro-relâmpago (paranoias de morador de cidade grande), que é um smart phone da LG, operado pela Vivo. Toda vez que o aparelho principal, um Iphone, da TIM, fica inacessível, as ligações são tranferidas automaticamente para o Celestino. Parecia tudo certo. Estava sem a TIM, mas qualquer chamada seria recebida no aparelho da Vivo, com o qual também posso fazer minhas chamadas.

     Não deu outra: a carga do Celestino estava a 23% e em 12 horas acabou. Ao colocar para carregar, já no Uruguai, descobri duas coisas a) o carregador estava com defeito; b) no Uruguai, não existia carregador  para ele.

    Bom, pelo menos temos quatro Iphones, desconectados da TIM, mas que podem mandar e-mails, se plugados em alguma rede. A dos hoteis, por exemplo. E foi assim que viemos até aqui, inclusive porque o carregador deste laptop que utilizo para atualizar o blog fez-nos o favor de quebrar fisicamente: a ponta da fonte que encaixa no laptop e que tem dois pinos, apareceu só com um.

     Resumindo: fizemos um gatilho com outro carregador e conseguimos carregar o Celestino. Fizemos uma marmota e conseguimos carregar a bateria deste laptop e compramos chips pré-pagos da Movistar uruguaia e colocamos nos nossos Iphones. É tudo meia boca, mas está funcionando.

     Chegamos a Punta del Este às 13h00, depois de uma viagem lenta, tranquila e contemplativa. A via duplicada, o asfalto e a sinalização irrepreensíveis (não são novos – são antigos e de excelente qualidade) dão um conforto a que não estamos acostumados. A paisagem é rural. Centenas de fazendas se sucedem, com criação de gado de corte e ovelhas.

Ruta 9 de Chuí para Punta del Este

 

     Ao chegar, não reconheci a cidade. Afinal, havia 30 anos exatos que não vinha aqui. Prédios modernos, enormes, avenidas amplas, lembrando algumas áreas de Miami. Uma sensação brutal de alienação, hostilidade.  Mas um pouco depois aquilo acabou e revimos o cenário que estava em nossa memória – residências térreas, de altíssimo nível, um estilo arquitetônico que parece próprio daqui, com uma sofisticação e um refinamento extremamente agradáveis aos olhos, em sua paradoxal simplicidade. E uma temperatura de 7 graus, com gosto de 2 graus, por causa do vento.

A cidade é uma península e o hotel fica de frente para o mar, voltado para o polo sul. Resultado: frio.

      Visitamos alguns hoteis – contrariando nossa rotina nesses casos, decidimos por escolher o hotel sem antecedência alguma. Definido que gostaríamos de ficar no eixo comercial da peninsula – Punta é uma península -, exploramos o comprimento e as laterais da Av. Gorlero. E achamos o Golden Beach, um hotel bem localizado, com um atendimento de primeira e preço de segunda.

     Confortável e estratégico, o hotel nos permitiu, a pé,  vasculhar a redondeza e voltar para casa. Nessas incursões, duas recomendações gastronômicas: Los Caracoles e El Secreto. Fantásticos. Mais não devo dizer.

Cartão postal de Punta: a escultura La Mano, na Playa Brava

Este cão marrom e branco apaixonou-se pelo nosso grupo. E nos acompanhou em todos os passeios, nos dois dias que ficamos na cidade.

  

      Dia seguinte, pé na estrada, com destino a Montevidéu, a 130 km de Punta del Este. A irrepreensível estrada de pista dupla, pedagiada, lembrava aquelas maravilhosas estradas americanas e europeias. Já abordamos esta questão aqui nesse site: porque eles conseguem e nós não? Mistério…

Largada de Punta del Este para Montevidéu

Aspecto geral da estrada Punta del Este Montevidéu. O piso é de cerca de 15 cm de concreto. Asfalto é só o arremate.

     Agora  estamos na capital uruguaia. Nos anos 80, quando estivemos aqui, Montevidéu me deixou uma sensação opressiva. E hoje, 30 anos depois, num excelente hotel – Esplendor Cervantes, na rua Soriano, diária de 120 dólares por casal -, ao sair a caminhar pela cidade, veio-me o mesmo sentimento de opressão, de depressão, de tristeza. Acho que faltam cores, falta um ritmo, falta alguma coisa em Montevidéu, que nos coloca a milímetros de distância da felicidade. Ela está perto, mas é intangível.

     Almoço em La Outra, uma grife da gastronomia de carnes do país. Ambiente despojado, até quase anárquico, desconfortável, mas lotado. Não se aceitam cartões de crédito. Vagas para estacionar inexistem. E a comida, bem…melhor cada um testar e dar seu parecer.

     Jantar no El Fogón – bom demais, muito alegre, grande cozinha, muitos brasileiros.  

     Amanhã partiremos para Colônia del Sacramento, cidade uruguaia fronteira a Buenos Aires, a 130 km daqui. Vamos deixar o carro em um estacionamento e fazer a travessia de barco, o Buquebus. Deve ser bom. A travessia do Rio da Prata deverá durar cerca de 45 minutos. Antes, passaremos cerca de 6 horas em Colônia, que parece ser uma coisinha mais linda! E do outro lado, Buenos Aires. Seus tangos, cafés e Bomboneras nos aguardam.

Entrada de Colonia del Sacramento. A estrada é um primor.

     Amanhã a gente conta.

                                               Edimar Rodrigues de Abreu – 07.07.2012

De Buenos Aires.

     Já estamos do lado de cá do Rio da Prata, na Rua Corrientes 1344, no Novotel. O deslocamento de Montevidéu para Colônia del Sacramento, cerca de 160 km, foi um passeio, nos exatos termos em que se deram os nossos passeios pelo Uruguai: sem surpresas.

    O asfalto é sem críticas e a sinalização primorosa. A propósito, ao passarmos por um pequeno trecho onde homens estavam trabalhando no pavimento da pista da direita, vimos perfeitamente, através de um corte feito na pista em obras, que embaixo do asfalto uruguaio está uma camada de pelo menos uns 20 cm de concreto. Ou seja, são estradas feitas para durar séculos!

Esta estrada deve tem mais de 30 anos. Eu a percorri em janeiro de 1982 e era assim!

     Chegamos a Colônia por volta de 13h00 e fomos direto para o Restaurante La Carmen, que é o bicho. Tudo certo. O Chef é um artista que chega perto do Salvador Dali, tal a engenhosidade estética dos pratos. Erraram no vinho. Nada irreparável.

O restaurante La Carmen, a cavaleiro do Rio da Prata.

     A travessia do Rio da Prata durou uma cerveja Quilmes: é rapidinho. E agora vamos enfrentar Buenos Aires. Se sobrar tempo, voltaremos por aqui.

O Buquebus Atlantic III é um navio grande, moderno e rápido. Mas o free-shop de bordo tem preços maiores do que os de Brasília.

                                                 Edimar Rodrigues de Abreu – 08.07.2012

     Estamos em Buenos Aires. Não sei o que dizer. Só sei que, por mais que eles falem mal de nós,  nunca mais falarei mal dos argentinos!

                                       Edimar Rodrigues de Abreu – 09.07.2012

De Brasília (DF)

   Não acredito. Estamos de volta, sãos e salvos. Já estamos na roça, no nosso cantinho rural, a dezenas de quilômetros da civilização, cercados de verde, de azul do céu, do barulho do riacho. Nossas vaquinhas Jersey estão lá pelo pasto, os tucanos estão comendo as pupunhas e os 14 cães estão aqui, ao redor da varanda. E dentro da casa, nossos gatos passeiam e se esfregam sobre nós.

     Tomo uma cerveja enquanto escrevo. Como é que foi mesmo? Saímos de Brasília para Buenos Aires no dia 29.06.2012. E chegamos à SQN 115 no dia 24.07.2012. Nesse intervalo, tivemos vivências intensas, recordações, descobertas e constatações.

     A primeira de todas as impressões é essa certeza de que nós, nosso filho e nossa nora incorporamos um pedaço inesquecível de nossas vidas à nossa memória.

      A segunda é que percorremos 7.600 km e não encontramos um único buraco nas estradas. Não temos necessidade de fazer nenhum alerta a respeito do trecho tal da rodovia tal. NADA! Se o carro estiver bem e se a saúde estiver em ordem, ir de Brasília a Buenos Aires é a típica aventura da qual, do ponto de vista desse post  “Rodovias Brasileiras”, blog “www.expressaodaliberdade.com.br”, não há quase nada a comentar.

     Na fronteira do Uruguai, em Chuí/Chuy, realmente a aduana uruguaia nos cobrou a Carta Verde. Como há muitos escritórios de despachantes oferecendo esse documento, imaginamos que haja ali um mecanismo em que a polícia exija e um sistema esteja pronto a fornecer por determinado preço. Como tínhamos a tal Carta Verde, ficou tudo redondo.

     Em Buenos Aires, vivemos uma experiência única, inesquecível e inacreditável. Em vez de casas de tango, fomos visitar o zoológico. Não é um zoológico comum. Fica numa cidade a uns cento e poucos quilômetros da capital. Chama-se Lujan. Nesse zoológico ocorre um fenômeno absolutamente extraordinário: as pessoas podem entrar nas jaulas dos tigres e dos leões, acariciá-los e – pasmem – amamentá-los com mamadeira.

      Quando pensei na minha apólice de seguro por morte acidental, desisti de entrar na jaula. No fundo, claro, um medo físico de que aqueles tigres imensos, de mais de 200 quilos, pudessem querer fazer um lanchinho rápido, e tal. Eu pensava: -“Se houver um acidente, como é que eu vou convencer minha seguradora de que eu entrei na jaula dos tigres por acidente?”.

       Convenci-me de que não deveria entrar. Mas não consegui convencer minha mulher, meu filho e minha nora. E aí fiquei de fotógrafo e cinegrafista. E as imagens estão aí, para quem quiser ver. Minha mulher, minha navegadora, com quem vivo há 38 anos, dando de mamar a um tigre de 300 quilos? Meu filho, que eu conheci indefeso no berçário há 32 anos, alisando um monstro daqueles? E minha filha (nora), que adora animais, cuidando das feras como se fossem nossos gatinhos, cãezinhos e vaquinhas da roça?

       Fui espectador, fotógrafo e cinegrafista. Mas a imagem de Ivanizes, minha companheira há décadas, chorando de emoção e adrenalina, enquanto dava mamadeira ao tigre gigantesco, deu-me uma cruel sensação de que eu havia perdido alguma coisa importante na vida!

Esses bodes aí não estão com nada. Aguarde.

Ivanizes acaricia uma fera de quase 300 kg.

    

 Fomos jantar num restaurante especial: o Cabaña de las Lilas, o preferido do meu “filho” mais velho, que morreu de câncer em janeiro de 2012. Nunca havíamos ido lá, até porque nunca havíamos ido a Buenos Aires. Mas ele adorava aquele lugar. Não demos espaço para a dor e nos divertimos muito, sentindo que ele estava ali conosco. O restaurante é simplesmente divino, ou seja, ele tinha razão.

       Arranchamos de tal forma num restaurante chamado Palácio de las Papas (batatas) Fritas, na av. Corrientes, que conseguimos ser prefeitos do local, no Foursquares.  Calle Florida, claro e outros bichos. Mas, no dia 12, começou a volta para o Brasil. Voltamos três vezes lá. Acho que as “papas” nos atraíram.

O dólar controlado pelo governo complicou um pouco as coisas na Calle Florida.

As batatas são infladas,como um pastel de vento. Como fazem isso? Segredo de 82 anos.

       A Argentina estava vivendo um problema econômico complicado, que envolvia controle de câmbio e o dólar estava muito valorizado. Então, o freeshopp do Buquebus – o barco que faz a travessia de Buenos Aires para o Uruguai – estava com preços muito parecidos com os de Brasília. Não compramos nada.

       Pegamos o carro no estacionamento de Colonia Del Sacramento e nos mandamos para Punta Del Este, para o mesmo hotel da vinda, o Golden Beach. Já não vimos mais o Bob, o cachorro que nos acompanhou o tempo todo na ida. Mas descobrimos que os apartamentos do quarto andar do hotel têm uma pequena cobertura, com solário e churrasqueira. E que o hotel fornece tudo para o seu churrasco – exceto o carvão, o que não entendemos – mas é muito legal.

Da próxima vez, vai rolar um churrascão!

       Daí fomos para Pelotas, com uma escala técnica nos free-shops de Chuy. Foi uma lambança. Cosméticos, roupas, bebidas, relógios. Tudo com preços a 20% dos preços de Brasília. Nossas compras foram totalmente legais, dentro das cotas (12 garrafas de bebidas por pessoa, 300 dólares por pessoa também). Mas as malas com roupas de frio ocupavam um espaço imenso e não havia como agasalhar todas as compras.

     Cancelamos algumas compras e nos desfizemos do kit CB. Uma explicação: quando viajamos, levamos um kit  de cama e banho, para eventualidade de o hotel não ser lá essas coisas e falhar nesses itens. E o kit CB é um volume respeitável de lençois, fronhas, cobertores e toalhas de banho. Presenteamos uma família de moradores de rua com o kit CB: duas horas depois, ao sairmos da cidade, ainda os vimos comemorando o presente. Mesmo assim, tivemos de viajar com malas e caixas no colo.

       Dormimos em Pelotas. Mal. Café da manhã nota 10.  E, no dia seguinte, chegamos a Gramado-Canela, onde ficamos no Hotel Fazenda Pampas.

A tradicional foto é auto-explicativa: chegamos a Gramado(RS)

O Hotel Fazenda Pampas, onde ficamos, é puro charme entre Gramado e Canela e defronte ao melhor Café Colonial das duas cidades.

       Nota 10. Curtimos tudo: todos os museus, todos os locais especiais, todas as fondues, todos os vinhos, todos os galetos, todas as massas. E o frio de 5 graus, com jeitão de 1 grau, foi uma festa!

Cinco graus ao meio-dia e 21 minutos.

Cinco graus ao meio-dia, com direito a névoa. É Gramado, é Brasil e é mês de julho!

        Começamos a voltar e dormimos em Curitiba.  Jantamos no Outback, no shopping ao lado do hotel. Muuuuuito bom!

       E nos mandamos para Paraty pela BR 116, atravessando São Paulo pelo Rodoanel e seguindo até Taubaté, onde decidimos que era o local adequado para descer a Serra do Mar. Aí, o bicho pegou.

        A experiência é quase indescritível e merece alguns comentários retrospectivos. Quando jovem, gostei de aventuras, riscos e perigos. Agora, continuo gostando de aventuras, riscos e perigos na televisão. Descobri, aliás, que tenho medo de altura, coisa que não me passou pela cabeça, há 34 anos, quando desci no precaríssimo teleférico de Tianguá, sobre o abismo da Serra de Ibiabapa, no Ceará, ou quando cruzei as pontes de cabo de aço, tipo Indiana Jones, no extremo Norte do Brasil, para conhecer a Pedra Pintada, na divisa do Brasil com a Venezuela.

       Ao visitar o Cristo Redentor, em 2001, tive de rastejar diante do abismo, sem mencionar que, no topo do World Trade Center, em 1997, fiquei o tempo todo de olhos fechados. Não sei se são coisas da idade. Só sei que são coisas.

       Vamos ao bicho que pegou. Em Taubaté, na BR 116, como programado, viramos à direita. São 96 km até Ubatuba e, em seguida, uns 60 km até Paraty.  Estrada boa, sem buracos, excelente sinalização vertical. E uma insistente mensagem nas placas dizendo que, entre os quilômetros 76 e 88 era proibido o tráfego de caminhões e ônibus. Tocamos o barco, com um visual lindíssimo de montanhas e vales. Bordejamos a cidade de São Luiz do Paraitinga, onde, há dois anos, uma enchente destruiu a igreja, a cidade e grande da parte da cultura e da memória locais.

       Estávamos discutindo a tragédia de São Luiz do Paraitinga quando a última placa avisou: -“A partir daqui, é proibido o tráfego de caminhões e ônibus”. Estávamos, segundo o nosso sistema de navegação, a 986 metros acima do nível do mar. Meu filho Breno, que estava dirigindo, pergunta: – “Pai, se estamos chegando a Ubatuba, que fica a 10 ou 15 km daqui, mas está ao nível do mar e nós estamos a quase mil metros de altitude e ainda subindo, o que vai acontecer?” Eu respondi para ele –“Filho, como dizem as meninas do Call Center, o bicho vai estar pegando! Vai ser um trem complicado!” Não fechei minha boca e o asfalto quebrou para baixo, num ângulo de 45 graus e, logo em seguida, 90 graus à esquerda!

       Marchamos para um paredão de pedra, a cerca de 10 metros de distância, sem ver o chão, a uma velocidade de cerca de 70 km. Câmbio automático, pista molhada, ladeada e coberta pela Mata Atlântica, limo sobre o asfalto. –“Filho não freie. Reduza!” –“Pai, já passei para o câmbio manual, mas a segunda não entra.” Então, vou misturar um pouco de freio ABS e segunda marcha, depois primeira. “Vai dar tudo certo.”, afirmou ele.  Parecia um monge budista, absolutamente zen, diante do tsunami de Fukushima.

       Nesse momento, minha nora, Joanna, veterana dorminhoca em viagens longas, acorda, vê a desgraceira e grita: -“Ninho, diminui a velocidade, para essa porra!”. Não existia a mínima possibilidade de parar. A estrada, sem UM buraco, de mão dupla, não tinha acostamento. E o Breno deu um show de direção. Conseguiu engrenar a primeira marcha no câmbio automático, marcha que usou ao longo dos próximos 10 km de adrenalina.

     O negócio é o seguinte: é uma descida de 986 metros de altitude para os 5 metros de Ubatuba, que ocorre em cerca de  7 km, ou seja, a cada km você desce 120 metros. Há momentos em que o motorista não vê o asfalto à sua frente: o ângulo de descida é muito agudo. Você tem de esticar o pescoço e colar a cara  no para-brisas para ver para onde está indo. E as curvas de 180 graus são absolutamente comuns, ou seja, você faz a curva e volta para onde veio. É por isso que é proibido o tráfego de ônibus e caminhões. Eles ficariam entalados, uma vez que é uma estrada de mão de dupla, sem acostamento.

      De lá de cima, a gente via as nuvens lá embaixo e, embaixo das nuvens, o mar. Mas ninguém estava ligando para mar e nuvens. Ivanizes gargalhava, zombando da tensão minha e da Joanna. Eu, com a filmadora na mão, não consegui apertar o botão nem gravar nada. Mas gritava “Uhh, Amaro!” (o grito do Sargento Getúlio, no grande romance de João Ubaldo Ribeiro).  Mas a sensação mais forte que me ficou, foi o eco. Enquanto meu filho Breno, zen, enfrentava aquela prova de direção pela qual jamais ele havia passado, eu ouvia perto as gargalhadas da minha esposa, Ivanizes (amamentadora de tigres) e os ecos longínquos dos gritos de Joanna, minha nora –“MANO DA FAVELA, o que é isso???!!!”.

     Breno, zen como sempre, teve a iniciativa de acionar uma câmara que estava num suporte do parabrisas e filmou parte do drama. Eu não consegui filmar nem fotografar nada, preocupado com minha sobrevivência. As imagens que serão colocadas nesse espaço do texto (quando ele enviá-las para mim)  são dele.

     O sufoco não parava nunca. Dezenas de calotas ao longo da descida, visivelmente perdidas por outros motoristas nervosos.  Declives profundos, falta de visão acima do capô do carro, curvas súbitas no sentido contrário àquele em que estávamos indo. De vez em quando um acostamento, um pouco mais largo, rotulado de baia de emergência. Numa dessas baias,   onde vimos um carro parado, com uma família e pessoas vomitando. Acho que as baias são para isso.

         De repente, termina o declive e chegamos ao nível do mar. Um quiosque na beira da estrada tem uma placa que diz –“Socorro mecânico para freios”. Estávamos a 7 metros acima do nível do mar, em Ubatuba. Pegamos a BR 101 para Paraty, onde chegamos ao anoitecer.  

       Andamos a pé por Paraty. Fomos aos correios para despachar o excesso de bagagens (desde o free-shop de Chuí malas e caixas já estavam vindo no colo). Despachamos caixas de alfajores e um monte de roupas de frio, usadas no sul do Brasil, no Uruguai e Argentina (enfrentamos 2 graus negativos por aquelas bandas).

      Breno e Joanna posaram para uma caricatura do Renato, um croata que vive ali e que retratou a mim a Ivanizes em 2002. Jantamos no restaurante Porto, com uma cozinha maravilhosa. Sentimos a falta do Merlin, uma casa que servia umas coisas divinas vindas do Mar Negro e que havia fechado. Ao final da caricatura do Breno e da Joanna, o Renato informou que o Merlin continua funcionando. Bem: pelo menos conhecemos o Porto.

        No dia seguinte, contornamos a baía e fomos para Angra dos Reis.

       Angra é maravilhosa. Já estivemos por lá algumas vezes. Mas cabem algumas considerações. A cidade não tem nada de turístico nem oferece estrutura para isso, o que você encontra nas pousadas localizadas longe do centro. O que vale mesmo são os passeios pela baía, onde o mar apresenta um verde esmeralda maravilhoso e as ilhas escondem mil segredos.

       Contratamos, por R$ 250,00,  um pequeno veleiro para 7 pessoas – éramos 4 – e foi um espetáculo! Sidney, o dono e piloto, é o carioca típico – só alegria. O dia foi só sol. E a gastronomia no restaurante da Pousada Coqueiro Verde, na Ilha Grande, é algo inesquecível. O lugar é paradisíaco, convida a sonhar. E nos apareceu uma cadela, chamada Nina, que se apaixonou por nós e nós por ela – exatamente como o Bob, lá em Punta Del Este. Nina grudou na gente, foi conosco até o píer. Havia um bote que nos levaria até o veleiro. Ela entrou no bote. Na hora de embarcarmos, ela pulou dentro do veleiro. Foi difícil retirá-la e devolvê-la ao bote que nos trouxera.

Nina é elegantíssima, limpíssima, cheirosíssima, com uma coleira chic, com o nome dela. Disseram que pertence ao dono de uma conhecida marca de biscoitos, que tem uma ilha ali perto. Um doce de pessoa, a Nina.

     Voltamos para a pousada quase noite.

     Saímos da Pousada Daleste às 10h00 pela BR 101, com destino ao Rio. Na altura de Itaguaí, pegamos a Avenida Brasil vazia (era um sábado), subimos a serra de Petrópolis, já na BR 040, e ao meio dia estávamos fazendo check-in na Pousada Altenhaus, nossa hospedagem preferida em Itaipava. Almoço no Parrô do Valentim, que para nós é um ritual sagrado. Os garçons já são nossos velhos conhecidos e o divino bacalhau da casa, com um excelente vinho português, já são praticamente um menu pré-definido para nós.

       A partir daí, foi um bater de pernas por dois dias, a descoberta de um pequeno e fantástico restaurante mineiro no Shopping Estação, com direito a música ao vivo, com um virtuose do violoncelo, compras de porcelanas na Cerâmica Salvador, diversas peças de decoração e utensílios artísticos de cozinha na Serafina e o encontro com o há muito tempo procurado filhote de chihuahua branco, no Pet Shop Curva da Lua. E a constatação de que nada daquilo caberia no carro, já lotado.

       Nova visita aos correios e o despacho de duas malas. Na segunda-feira, às 10h30min, estávamos na BR 101, com destino a Sete Lagoas (MG), mais precisamente ao Hotel Fazenda Solar do Engenho, situado 10 km antes da cidade.

     No caminho, uma bela surpresa. Na reta de chegada a Belo Horizonte, descobrimos que o novo e gigantesco viaduto ficou pronto e o velho, decrépito e assassino Viaduto das Almas ficou fora do nosso caminho.

     Chegamos ao Solar do Engenho por volta das 17h00.  O lugar é tão lindo que as noivas do lugar fazem sua sessão de fotos prévias para os álbuns de casamento lá. E havia um monte delas, distribuídas pelos diversos ambientes encantadores da fazenda. O hotel, construído de materiais de demolição, é um passeio ao passado e de um bom-gosto a toda prova. Jantamos uma gostosa comida mineira no restaurante do hotel e fomos dormir pensando no dia seguinte, última jornada da viagem.

     Após o café da manhã, retomamos a BR 040 e duas surpresas nos esperavam. A primeira é que a intermináááável obra de duplicação da pista Sete Lagoas-Paraopeba foi finalmente concluída. A segunda é que o traçado novo não passa por dentro da cidade de Paraopeba e suas centenas de milhares de quebra-molas. Atenção para o asfalto. Embora novo, bem sinalizado e a pista ser dupla, há diversas depressões suaves mas desconfortáveis, que dão aquele frio na barriga (o chamado “gozo de virgem”). Contamos oito delas nesse trajeto.

        Por volta das 16h00 entramos em Brasília e aportamos na SQN 115. Foram 25 dias, 7600 km rodados, nenhum incidente, nenhum pneu furado e nenhum buraco na estrada a ser reportado para nossos sputniks (companheiros de viagem, em russo – como chamamos os frequentadores desse blog).

       No dia seguinte, pegamos a BR 020, duplicada, e em 30 minutos estávamos no portão da roça, toda a comissão de frente, composta de 14 cães, fazendo a festa pelo nosso retorno e absolutamente curiosos para conhecer o novo componente – o chihuahua branco de Itaipava.

Fred Mercury, o novo integrante da matilha!

                                               Edimar Rodrigues de Abreu – 26.07.2012

    

     

      

 

 

 

    

 

    

 

     

           

 

     

 

 

9 comentários em “BRASÍLIA-BUENOS AIRES DE CARRO

  1. Boa noite ! Saí do post Brasília – Florianópolis e vim pra cá, porque percebi que é quase o mesmo caminho. Esse trecho que você citou ser perigoso, “Serra do Cafezal”, tem alguma forma de evitá-lo? Sua sugestão é que eu saia as 11h de Brasília e pernoite em Uberaba também? Obrigada

    • Olá, Aline. Bem-vinda ao blog. A rota é essa mesma. Há algumas possibilidade de driblar a Serra do Cafezal, mas se tornam mais longas, mais demoradas e menos estruturadas do que a recomendada. A Serra em si não é perigosa. O problema é a insistência de viagens noturnas naquele trecho – que é de pista simples. Então, os acidentes com vítimas se multiplicam. Esta é a razão pela qual propomos o pernoite um pouco antes do Rodoanel de São Paulo (Ribeirão Preto, Limeira, Campinas ou Jundiaí), ou seja, para que se passe a Serra do Cafezal no começo da manhã. Não se preocupe, portanto. Faça sua parte que a Serra vai ficar bem comportadinha, OK?
      Um grande abraço.
      Abreu

  2. Transcrevemos abaixo comentário de Alceu Simões Nader, postado em 19.08.2017, no post “Manual de sobrevivência em viagens de férias nas estradas brasileiras” e respectiva resposta:
    Enviado em 19/08/2017 as 13:41
    Prezado Abreu,
    Obrigado pela boa vontade e pelo serviço de sobrevivência nas nossas estradas dado pelo seu blog. Fui repórter-pesquisador do Guia 4 Rodas nos anos 70, sei o trabalho que dá atualizar as informações – o que dignifica ainda mais o seu blog.
    Vou fazer Brasília-Trancoso (BA) e encontrei aqui informação essencial para eu planejar a viagem. Muito obrigado.

    Em resposta a Alceu Simões Nader.
    Olá, Alceu. Bem-vindo ao blog. Este seu comentário encheu a gente de orgulho. E como orgulho é pecado, estamos pecando adoidado por aqui. É que receber uma mensagem desse teor de um profissional que ajudava a tocar o Guia 4 Rodas nos anos 70 é um estímulo monumental para esse trabalho de formiguinha que fazemos por aqui. O nosso primeiro Guia 4 Rodas foi-nos dado em 1978 por um amigo da Ivanizes, minha navegadora há 42 anos. Só que a edição era de 1975. E com ele fizemos a viagem de nossas vidas: Brasília-Guarapari-Eunápólis-Salvador-Aracaju-Maceió-Recife-Natal-Gruta de Ubajara(CE)-Fortaleza- Parque Nacional de Sete Cidades(PI)-São Luís(MA)-Belém(PA)-Belém/Brasília-Anápolis-Brasília. E tudo isso em 30 dias de férias. As estradas eram boas e vocês, repórteres-pesquisadores, eram extremamente confiáveis. Seguíamos religiosamente o roteiro de hoteis e restaurantes com o adesivo “Quatro Rodas esteve aqui”. Todas os comentários que aqui se publicam, independentemente do destino da viagem ou da natureza do post original (o blog tem outras seções que não Rodovias Brasileiras), sempre têm uma carga de estímulo para nós, seja porque as pessoas estão inseguras em relação à viagem, seja porque estão agradecidas por irem e voltarem em segurança. Mas uma mensagem como a sua, que parte de uma autoridade no assunto e que ajudou um guia que era uma luz nessa área, quando não existiam internet nem GPS, é particularmente gratificante. Você fez o comentário em nosso post “Manual de sobrevivência em viagens de férias nas rodovias brasileiras”. Por certo deve ter visto os demais posts de nossa aba “Rodovias Brasileiras”, do site wwww.expressaodaliberdade.com.br, que abriga o blog. Dessa forma, gostaríamos ter a sua autorização para reproduzirmos o seu comentário em todos os posts da aba (Brasília-Porto Seguro de carro, Brasília-Ilhéus de carro, Brasília-Salvador-Natal de carro, Brasília-Buenos Aires de Carro e tantos outros que lá estão publicados). Isso porque alguns princípios nossos – segurança, segurança, segurança, ainda que por rotas mais longas e sem viagens noturnas – não são bem compreendidos por alguns de nossos visitantes. Acontece que a maioria de nosso público básico é composta de gente simples, marinheiros de primeira viagem, que partem com a família inteira, em veículos modestos. E é para essas pessoas que nós nos desdobramos para orientar, com responsabilidade, particularmente em relação aos cuidados com os idosos, com as crianças e atenção para com os buracos, os animais na pista, as estradas ermas, principalmente de terra, sem policiamento da PRF, os restaurantes de beira de estrada e os postos de combustíveis de marcas genéricas. Sua presença aqui e nos demais posts seria um importante reforço nessas nossas recomendações, o que muito nos honraria e ajudaria. Mais uma vez, obrigado, Alceu, e esperamos que você nos autorize a reproduzi-lo nos outros posts como solicitado. Faça uma boa viagem para Trancoso e aguardamos notícias suas.
    Um grande e fraternal abraço.
    Abreu
    O Alceu autorizou por e-mail, em 20.08.2017:
    “ Pode reproduzir sem problemas”.
    Abs

  3. Olá Abreu estou querendo fazer essa viagem de carro ate Buenos Aires, miro em Brasilia, vc recomendaria? Vc fez mesmo em Quantos dias? Abs

    • Olá, Marcos. Bem-vindo ao blog. Claro que recomendaria. É uma das viagens mais apaixonantes que já fizemos. O número de dias, bem… isso depende do tempo de que a gente dispõe e da pressa de chegar… onde mesmo? Claro que, para quem chegar rapidamente a Buenos Aires, nossa recomendação é pegar um voo em algumas horas estar lá. No nosso caso, levamos 8 dias para chegar a Buenos Aires. No nosso caso e no seu, parece que o “barato” é outro, ou seja, na cabeça de quem gosta de viajar de carro, a viagem é o que interessa, não o destino! Todas as informações estão atualizadas, exceto em relação à BR 101, cuja duplicação em Santa Catarina está quase concluída. Faça uma boa viagem e dê notícias, Marcos.
      Um grande abraço.
      Abreu

  4. Olá Abreu, pretendo fazer uma viajem dessas com minha mulher e o apolo – labrador branco-

    Fazer o seguinte percurso:

    BSB > argentina (patagônia) subir (Boi nos ares) > Chile (cordilheira, atacama) > Santiago > Mato grosso > BSB. Pretendo fazer isso em uma mitsubish savana (triton) nas férias de dezembro e janeiro. abs

    • Olá, Nésio. Bem-vindo ao blog. Gostei desse seu projeto. É muito atrevido. Principalmente com o Apolo. Como minha experiência rodoviária está limitada a Brasil-Uruguai-Argentina, pedi a ajuda “dos universitários”. Meu filho mais novo, Dênis, fez alguma coisa parecida com o trajeto que eu fiz e parecida também com o que você quer fazer. Isso foi em 2014. Ele voltou por Foz do Iguaçu. Assim que ele se manifestar, eu voltarei para fazer algumas ponderações, OK? A respeito de Carta Verde, cambões, correntes e “Policia Carretera”. São informações importantes para que você não tenha dores de cabeça, está bem?
      Um abração.
      Abreu

  5. Olá!

    Estou querendo fazer uma viagem parecida com a sua. Saindo de Goiânia passando por Montevidéu e Buenos aires. Quero saber quento vc gasto +- de combustível e pedágios? só para termos uma pequena ideia.

    Abraço!

    • Olá, Lucas. Bem-vindo ao blog. A nossa viagem teve um total de 7.000 km. Nosso carro (o carro do meu filho) era um Azera, com consumo médio de 7 km/l. Isso significa, em dinheiro de hoje, cerca de R$ 3.300,00. Se tivéssemos ido no meu carro (Honda Civic, que faz 10 km/l), o gasto ficaria em R$ 2.300,00. Os pedágios, somados, ficam por volta de R$ 200,00. Isso considerado nosso roteiro, ou seja, voltamos pelo Rio de Janeiro.
      Um grande abraço.
      Abreu

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