“MAS PORÉM” ESTÁ CERTO. Assinado: Camões

                                                                                                                                                             15.08.2012

            Ler Luiz Vaz de Camões e seu épico, Os Lusíadas, sempre me pareceu um dever de casa difícil de cumprir. As professoras cobravam a decoreba e nós recitávamos na sala de aula “as armas e barões assinalados” e os “mares nunca dantes navegados”.      

            Não tínhamos a mínima ideia do que estava rolando naquela aula de Português, na segunda série do ginasial, hoje correspondente à sétima série do ensino fundamental. Não existia um mestre que nos mostrasse que havia conexão entre o texto da aula de Português e a aula de história do Brasil, de duas semanas atrás, que falava das grandes navegações.

            Meu Deus, como gostar de Os Lusíadas sem conectá-lo à descoberta do Caminho das Índias por Vasco da Gama e ao descobrimento do Brasil? Cara, Bartolomeu de Gusmão, Fernão de Magalhães (e Fernando Del Cano), Infante Dom Henrique, Escola de Sagres, Velho do Restelo – tudo são pessoas, fatos e histórias entrelaçadas, que Camões compilou em “Os Lusíadas”.

            Aí, acontece um negócio fantástico: você se aposenta. E sobra tempo. E você decide gastar seu tempo extra tentando entender os seus professores. E você, naturalmente, vai reler Os Lusíadas. E descobre que está tudo lá. Tratava-se da mais bela obra de marketing, onde se buscava resgatar o papel – importantíssimo – de Portugal nas Grandes Navegações.

            Adorei rever Os Lusíadas, contextualizado naqueles tempos pós-Reforma Protestante,  pós-Renascença, pós-descoberta do Novo Mundo.   E reverenciei esse poeta, tradutor literário dessa epopeia que foram as heroicas aventuras portuguesas. Principalmente pela clareza da descrição do que hoje, tempos menos marítimos e mais aéreos, poderíamos chamar de voo cego.

            Eu tenho brigas fantásticas com minha língua mãe. O português, para mim, é um tesouro que a cada dia me reserva uma surpresa. E Camões é o capo dei tutti capi (o chefe de todos os chefes) desse idioma. Brigo com as meninas dos Call Center pelo uso do gerúndio –“A partir de agora, o problema está resolvido e o senhor vai estar podendo estar ligando normalmente.”.

            Quebro a cara algumas vezes. Por exemplo, trabalhando na área de turismo, corrigia as pessoas: “Não é translado, é traslado”. E depois descobri que também pode ser translado! E meu filho vem me dizer que estrupo também está certo, em lugar de estupro.

            Esqueçamos essas mágoas semânticas! Só que há uma que não posso esquecer. Passei a vida tentando mostrar às pessoas que ambos os dois não era uma boa construção, que jornada diária era um pleonasmo. Mas porém, fracassei no mas porém.

            Por que razão?

            Ora, sendo conjunções adversativas, mas e porém representam a mesma intenção de quem as está usando, de dar uma guinada de 180 graus no raciocínio. E se o “MAS” dá essa guinada, o “PORÉM” também a dá. Se usarmos as duas expressões, então, significa dar uma guinada de 360 graus no raciocínio e voltar exatamente para onde estávamos.

            Resumindo: para quem tem disposição de analisar os átomos e moléculas da língua portuguesa, essas minhas colocações aí em cima devem fazer sentido. Para os que não são chegados a esse jogo, eu pergunto: – “O que você acha de uma linda moça ou um belíssimo rapaz que, estando na sua paquera, responde a uma observação sua com uma frase começando por –“ Mas porém,…”?

            -“Eu poderia ter passado naquele concurso, mas porém deu um branco!”

            Você “sairia” com um homem que dissesse isso? Você namoraria uma moça que dissesse isso?

            Pois é: é aí que entram as Grandes Navegações, Escola de Sagres, Camões e o diabo:

            CAMÕES, Os Lusíadas, Canto Terceiro, Estrofe 99, quinto verso:

            – “MAS PORÉM, quando as gentes mauritanas….”

E também no Canto Sexto, Estrofe 18:

       -“MAS PORÉM, de pequenos animais”…

            Está lá, com todas as letras. MAS PORÉM! Ou Camões era um analfabeto ou eu sou um completo idiota. Claro que a segunda hipótese é a mais provável. Mas (porém), como bom neurótico semântico – “EU NÃO ME CONFORMO COM ISSO!”.

                                               Edimar Rodrigues de Abreu – 15.08.2012                       

 

 

4 comentários em ““MAS PORÉM” ESTÁ CERTO. Assinado: Camões

  1. Boa Tarde Abreu,
    descobri o seu blog hoje e gostaria de te dar os parabéns! O conteúdo do blog é muito útil e interessante!
    Bem, estamos planejando, meu marido e eu, uma viagem para Aracajú em janeiro, saindo de Goiânia, onde moramos. Gostaria de saber se a melhor rota ainda é por Barreiras, onde almoçar, onde dormir, enfim, gostaria de usufruir de suas preciosas dicas para essa viagem.
    Ficarei aguardando ansiosa a sua resposta.
    Obrigada e Bom domingo.
    Denise Rocha
    Ps: não sei se aqui é o “local” correto para deixar esta mensagem, mas não consegui encontrar outro meio de me comunicar com você.

    • Olá, Denise. Bem vinda ao blog. Estou assinando o ponto rapidamente aqui, mas até amanhã eu retorno para conversar mais demoradamente com vocês. Em princípio, a rota é que é essencial: BR060 até Brasília e daí BR 020, BR 242, BR 324 e Linha Verde. Dê uma olhada no post “Brasília-Salvador-Natal”, principalmente nos comentários, ao final do post. Há também o post “Brasília-Salvador”, também olhando os comentários. Quando retornar aqui, máximo até amanhã à tarde, forneceremos as dicas “sob medida” para você.
      Um abraço forte.
      Abreu

    • Olá, de novo, Denise. Espero que você tenha conseguido ler os posts e respectivos comentários que lhe indiquei. O planejamento de sua viagem é um pouquinho diferente, porque normalmente as pessoas que frequentam o blog saem de Brasília (mas já houve um grupo grande que saiu de Cuiabá!). Pois é. A diferença na rota é que vocês têm 220 km a mais para rodar em relação a quem sai de Brasília. Assim, não posso recomendar o pernoite em Lençois – seriam 1280 km em um dia. Como sua viagem vai percorrer aproximadamente 1934 km (Goiânia-Aracaju), o ideal seria dividi-la em dois pedaços de 967 km. Isso remete para Ibotirama, às margens do Rio São Francisco. De Goiânia a Ibotirama são cerca de 1086 km. De Goiânia a Barreiras, são 820 km. De Goiânia a Seabra, são 1230 km.
      Então, vamos fazer o seguinte: vocês elegem Ibotirama como Plano A do primeiro dia. Qualquer atraso, complicação, problema, o Plano B é Barreiras. E se vocês conseguirem andar muito, sem problemas e passarem por Ibotirama antes das 15h00, aí o Plano C vai ser Seabra. Tudo certo?
      Pois bem. Saiam de Goiânia ao nascer do sol (não antes, no escuro). Aliás, aquele viaduto novo que dá acesso à Belém-Brasília facilitou muito a saída e eliminou um monte de atrasos. Pronto: vocês já estarão na pista dupla da BR 060. Dêem uma rápida parada no Jerivá para comprar uns refrigerantes e alguns empadões goianos maravilhosos que eles vendem e que vocês vão devorar com prazer ainda maior, quando estiverem atravessando o sertão da Bahia!
      A BR 060, em que vocês estarão vindo para Brasília, encontra-se perpendicularmente com a BR 020, na altura do Núcleo Bandeirante-Candangolândia. Vocês terão ali duas alternativas: para a direita, vão para Belo Horizonte e São Paulo; para a esquerda, vão pegar a BR 020, o início de sua viagem. Então, é só manter a esquerda o tempo todo e a via levará vocês naturalmente à BR 020.
      Imagino que vocês estarão fazendo isso por volta das 09h00 da manhã. Não adianta sairem mais cedo de Goiânia, porque vocês chegarão mais cedo a esse entroncamento (BR 060-BR 020) e toparão com um dos maiores congestionamento que Brasília apresenta de 06h30min até às 08.45min. O ideal mesmo é passar por ali depois das 09h00 da manhã, OK?
      Então, pronto (como dizem os baianos): Dona Denise e o maridão estarão na pista certa, apontados para o norte, na BR 020, com destino a Aracaju!
      Na verdade, embora eu chame de BR 020, esse pequeno trecho chama-se BR 450, mas é a mesma rodovia. Vocês vão rodar aproximadamente uns 20 km. A partir daí, haverá 6 postos do lado direito da via (onde vocês estarão) antes de entrar de novo no estado de Goiás. Abasteçam no primeiro que puderem. A partir daí, abasteçam a cada 200-250 km: não deixem o tanque chegar ao final – é o maior mico para quem roda por essas bandas. Aproveitem para esticar as pernas.
      A partir daí, o roteiro está dado. A estrada duplicada acaba em Formosa(GO), mas o movimento também diminui sensivelmente, não exigindo grandes esforços do motorista. Reabasteçam em Rosário (20 km após a entrada de Posse-GO). Em Rosário há um restaurante interessante e seguro, dá para comer alguma coisa sem risco de morrer. A partir daí, esqueçam da civilização: são 200 km de céu e mar(mar?), sem vestígio de posto de gasolina, exceto um na Roda Velha.
      Imagino que às 14h00 vocês estejam passando por Luís Eduardo Magalhães, às 15h00 por Barreiras e às 17h00 estejam chegando a Ibotirama, margem do São Francisco, hotéis e pousadinhas, de preços acessíveis, para todos os gostos e bolsos.
      E no dia seguinte é só um estirão até Aracaju, onde vocês vão comer uma carne de sol e tomar uma cerveja lá no Cariri, na Passarela do Caranguejo, em minha homenagem!
      Um grande abraço para vocês
      Abreu

      • Olá Abreu,
        muito obrigada pelas valiosas dicas, vou segui-las a risca. Quando chegarmos lá, o primeiro tim- tim será, com certeza, em sua homenagem!! Quando voltarmos dou notícias por aqui.
        Muito obrigada mais uma vez!!
        Denise Rocha.

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