O DNA DA CRISE FINANCEIRA MUNDIAL

           

                                                                                 

            Daqui da minha cadeira de balanço, na varanda da casa da roça, perdido no meio do cerrado do Planalto Central, faço a pergunta que milhões de pessoas estão fazendo pelo mundo afora:- “Como pudemos deixar acontecer uma crise financeira global de tamanhas proporções?”

            As primeiras chuvas que caíram nesta semana reverdejaram o cerrado. A grama e o capim renasceram vibrantes. Os passarinhos comemoram.

            A crise das hipotecas americanas, que tira o sono do mundo, está caracterizada como uma crise financeira. Mas não é apenas isso: é uma crise político-ideológica, com forte componente geopolítica. Na verdade, o que está em jogo é o papel dos Estados Unidos como nação líder dessa Arca de Noé global.

            Não é apropriado que cada país, neste momento, busque dentro de sua economia onde foi que errou: a culpa de nosotros é a mesma daquele japonês que puxou a cordinha da descarga do vaso sanitário no momento em que a bomba atômica de Hiroxima explodiu. A raiz da crise não está aqui, da mesma forma que a tal cordinha não era o disparador da bomba A.

            Meus cachorros se aproximam para a sessão lambe-lambe. Amontoam-se sobre mim: Rodin, Joan Miró e Nega (labradores), Pagu (dogue alemão), Brad Pitt (Jack Russel paraguaio) e Barack Obama  (pinscher). Dou uma baforada de cachimbo em cima da cachorrada, para diminuir o rebuliço e botar ordem na casa.

            - Parem! Estou refletindo sobre a crise mundial e desse jeito não dá!

Miró, o lambedor-mor, pondera:

            - Não há sobre o que refletir. O problema é essa coleira gigante que prende todos os países do mundo e que se chama dólar.

            Rodin, o labrador caramelo, coloca a mão no queixo e pensa alto:

            - Impressionante como as pessoas criam um mito e passam a acreditar que ele existe de fato! O dólar é um gnomo – e verde!

            Catarina, a coruja que voltou semana passada – como faz todos os anos, em outubro – para fazer o ninho na casa de passarinho em frente à minha cadeira de balanço, provoca:

            - Se os países fizessem uma sessão de psicanálise, voltassem no tempo e recordassem como o dólar transformou-se em moeda mundial, quebrava-se o encanto e as soluções surgiriam naturalmente.

            Pagu, a gigante de coração doce e olhar assassino, foi direta e taxativa:

            - Os americanos impuseram ao mundo sua moeda, em 1944, na Conferência de Bretton Woods, com base em quatro argumentos demolidores: a) o dólar era lastreado em ouro e os Estados Unidos detinham 80% das reservas mundiais do metal: b) os Estados Unidos produziam 52% do Produto Mundial Bruto; c) os Estados Unidos tinham o exército mais poderoso do mundo e era o grande vitorioso na Guerra, principalmente depois do dia “D”, na Normandia; d) os Estados Unidos eram a única nação do mundo a possuir a bomba atômica.

            Daqui de cima, posso ver um pedaço do riachinho. Suas águas cristalinas correm mansas para o mar, numa placidez impressionante. Quem diria que, lá por fevereiro ou março, na época das cheias, ele se tornará um turbilhão de águas barrentas e revoltas, com jeito de tsunami caboclo…

            Miró retoma a palavra:

            - E hoje? Os Estados Unidos extinguiram o lastro de ouro do dólar, em 1971. Sem lastro, o dólar é uma moeda como qualquer outra – papel pintado, que o Bush imprime na quantidade que julgar conveniente! E a participação americana no PIB mundial? Caiu de 52% para 20%. E a potência militar americana? Depois de 1945, não conseguiu terminar uma guerra que seja, uma mísera guerra: A Coréia continua lá, dividida; o Vietnã dispensa comentários; em Cuba, aquela base de Guantánamo é uma esfinge – nem invade, nem desiste. Nem casa, nem desocupa a noiva. E lá estão os talibãs – vivinhos da silva –  agindo no Afeganistão. Além do inferno infindável do Iraque. Exército vitorioso? Tenho dúvidas. E a bomba atômica? A única nação que a possuía em 1944, hoje divide essa prerrogativa com a França, a Rússia, a Inglaterra, a Alemanha, Israel, a Índia, o Paquistão e sabe-se lá mais quem… E olha que a Coréia do Norte e o Irã estão na fila…

            O chefe do bando de macacos – que todo dia a essa hora vem buscar sua ração diária de bananas – e tem de ser banana prata, nem verde, nem madura demais – grita de cima do mourão da cerca:

            - Se todas as razões que levaram à adoção do dólar como moeda mundial acabaram, por que essa situação continua?

            Barack Obama, o pinscher negro, arrisca:

            - Ninguém sabe. Mas é a pergunta que se devem estar fazendo a China, que tem 2 trilhões de dólares em títulos do Tesouro Americano (T.Bills, ou cheques pré-datados, para os íntimos) e o Japão, com 3 trilhões de dólares desse mesmo papel.

            E Miró, pragmático:

            - Podemos retomar a sessão de lambe-lambe?

                                                                                               (Edimar Abreu, 10.10.2008)

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