BRASÍLIA-LENÇÓIS MARANHENSES-LUÍS CORREIA-JERICOACOARA DE MOTO

novembro 12, 2018 Abreu 3 comments

 

BRASÍLIA-LENÇÓIS MARANHENSES-LUÍS CORREIA (PI)-JERICOACOARA (CE) DE MOTO

 

O grande escritor libanês Gibran Khalil Gibran, em sua obra “O Profeta”, resume a relação pai-filho: “Vossos filhos não são vossos filhos. São filhos da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. Vivem convosco, mas não vos pertencem”.

Lembrei-me muito dele quando, há cerca de 40 dias, meu filho mais novo, Dênis, aqui na roça, acionou a mãe e minha navegadora (Ivanizes) para ajudá-lo a planejar uma viagem. Queria ir de Brasília aos Lençóis Maranhenses, em seguida a Luís Correia, no delta do Parnaíba, e, depois, chegar a Jericoacoara, no Ceará.

Sentamo-nos à mesa para discutir. Pelas orientações deste blog, o caminho correto seria o descrito em nosso post “Brasília-Teresina-Fortaleza de carro”, publicado em nosso site www.expressaodaliberdade.com.br, na aba “Rodovias Brasileiras”.

Mas, nesse momento, o Dênis coloca um complicador: quer voltar pela rota recomendada por nós, mas quer ir pela Belém-Brasília (BR 153).

E mais dois complicadores: queria ir SÓ. E de MOTOCICLETA.

“Filho, vá de carro”. “Filho, vá por Barreiras”. Filho, já que é de moto, vá com algum grupo”. E o Gibran Khalil Gibran nos respondia: – “Vossos filhos não são vossos filhos….

E, em pouco tempo, o plano estava pronto. A ideia era sair de Brasília pela BR 70 e pegar a Belém-Brasília na altura de Uruaçu, subir em direção ao Tocantins e ao Pará e, de lá, chegar a Barreirinhas (MA), portal dos Lençóis Maranhenses.

Seguindo recomendações do próprio Dênis (viagens de moto não podem nem devem superar 500 km por dia), Ivanizes projetou o primeio pernoite em Gurupi (TO), a 596 km da Capital Federal.

Partiu às 10h30min, 40 minutos antes de eu chegar ao aeroporto de Brasília, de uma viagem aérea, no dia anterior, a Salvador. Eu deveria ir à casa dele, apanhar os seus três cães (um shitzu-Azzaro, um Pug-Bud e um chihuahua-Fred) e levá-los para a roça.

Acontece que, ao estacionar meu carro no aeroporto, na ida, descobri que havia deixado a chave da casa do Dênis na roça. Liguei para ele, explicando o problema, e ele se comprometeu a deixa uma cópia da chave de sua casa em nosso apartamento no Plano Piloto de Brasília, que eu pegaria, iria até sua casa e recolheria a matilha.

No dia seguinte, descobrimos que, se algumas coisas têm 1% de chance de dar errado, elas darão errado (Lei de Murphy). O Dênis se esqueceu de deixar a cópia da chave no nosso apartamento no Plano Piloto. Segundo, para a jornada de 596 km até Gurupi, teve um monte de problemas e só conseguiu partir às 10h30min. Viajou quase 100 km para descobrir, em Padre Bernardo, que havia apanhado o capacete errado: era menor do que o correto e a pressão começou a marcar o perímetro craniano de uma forma insuportável. Voltou para Brasília para buscar o capacete correto. Nesse momento, eu estava desembarcando no aeroporto de Brasília. Mas não nos comunicamos. Eu poderia ter ido à casa dele, com ele lá, e pegar os cães. Não aconteceu.

Fui para a roça – 70 km para ir e 70 para voltar – peguei os cães e voltei. Nesse momento, ele já estava na Belém-Brasília, lutando para chegar a Gurupi antes da noite. A 30 km de Porangatu, a Belém-Brasília vira um @#$%&*, segundo ele. Apesar disso, consegue chegar, jantar e tomar a sagrada cervejinha no hotel.

Primeira foto da viagem, Gurupi:

  

 

Dormiu em Gurupi, gostou da cidade e da estrutura hoteleira. No dia seguinte, retomou a viagem às 09h30min, com destino a Porto Franco. O detalhe ficou por conta do portão automático do estacionamento, cujo trilho quebrou dentro da máquina. E os hóspedes ficaram quase duas horas sem poder entrar, nem sair. Parou em Paraíso do Tocantins às 11h30min, para abastecer e analisar o trecho anterior. A síntese: se alguém chega a Gurupi e ficar tentado a continuar a viagem, esqueça: o trecho está em obras e não há sinalização horizontal. Até Aliança do Tocantins a estrada é boa. A partir daí, até Paraíso do Tocantins, a estrada é intermitente, oras boa, ora ruim. Mas sempre sem sinalização horizontal. Posto de combustível, só nas cidades. Não há postos nos intervalos, exceto alguns muito ruins, pouco confiáveis. Há postos em Aliança, em Crixás, em Santa Rita e em Paraíso, onde ele parou para abastecer (176 km de Gurupi). Assim, entre Gurupi e Paraíso do Tocantins, não se devem esperar grandes postos de combustível e lojas de conveniências, bons hotéis nem grandes rodovias. Já a cidade de Paraíso “é uma gracinha, com um comércio bem estruturado, bons hotéis e bons restaurantes”.

Pé na estada, uma hora parado por interrupção da rodovia em Araguaína, por um acidente. A leitura continua: estrada ora boa, ora em obras, ora interrompida, sem sinalização horizontal. Registra que, 54 km após Araguaína, a rodovia BR 153 deixa de ser a “Belém-Brasília” e vira à esquerda, na cidade de Wanderlândia para Xambioá. A Belém-Brasilia prossegue pela BR 226, para Estreito (MA). Só que o trevo que faz essa mudança em Wanderlândia é extremamente confuso e termina por induzir os motoristas a irem para Xambioá, em vez de seguirem para Belém. MUUUITA atenção ali: é preciso entrar na rotatória e seguir reto, nada de conversão à esquerda Após rodar 110 km, desde Araguaína, saiu do Tocantins e entrou no Maranhão. Nesse início do Maranhão, “aparentemente poucos têm habilitação, poucos usam capacete, poucos dão seta”. Parece um caos”.

Pernoite em Porto Franco, Hotel Saint Louis, bom confortável, restaurante ao lado do hotel e bem perto da rodovia. A jornada, de uma maneira geral foi boa, Apesar da falta de sinalização, mas são enormes retas em terreno plano que permitem ao motorista ver, de longe, se há acidente para acontecer e envolvê-lo, permitindo-lhe “tomar uma atitude defensiva. Reclama barbaridades do calor, não mandou fotos desse trecho e foi dormir. Saiu às 8h44min do domingo, em direção a Barreirinhas (MA), entrada dos Lençóis Maranhenses.

Já na saída, problemas na sinalização: as placas que conduzem à BR 226 (Porto Franco-Presidente Dutra) são muito discretas, induzindo o motorista a continuar seguindo pela Belém-Brasília, com destino a Imperatriz. Pegou a saída errada e só foi perceber o erro 3 km depois. Retorno e retomada da BR correta, passa pelos limites da Reserva Indígena Krikati, pela entrada para Sítio Novo, parando para abastecer em Grajaú, duas horas e 140 km depois da partida de Porto Franco.

Ao meio-dia, abastecimento em Barra do Corda. Para chegar lá, tangenciou a Reserva Indígena de Bacurizinho e atravessou, pelo centro, a Reserva Indígena Canabrava/Guajajara. A foto abaixo ilustra a condição geral da estrada, desde Porto Franco até Barra do Corda. Fica visível que o asfalto é bom, mas sinalização e acostamento a tornam perigosa para viagens noturnas, especialmente de moto:

  

 

Após 96 km, abastece em Presidente Dutra, pega a BR 135 e dispara, sem notícias, GPS descarregado e sem sinal de celular, para Bacabeira, onde entra à direita, pega a MA 402. Nessa ele comenta que, aparentemente, Barreirinha vai ficar só para ele, porque todo mundo está viajando em sentido contrário:

  

 

Exausto, depois de rodar cerca de 950 km de moto durante todo o dia, o Dênis finalmente chega à Pousada D’Areia, em Barreirinhas (MA), antessala dos fantásticos Lençóis Maranhenses! Resumo dele: “ A MA 402, que leva de Bacabeira a Barreirinhas é uma rodovia boa, mas praticamente não tem trechos que permitam ultrapassagem”. Para quem está no fim da viagem e tem de apenas acompanhar o fluxo, é extremamente cansativo. O cansaço foi de tal ordem que, após rodar mais de 2.200 km em três dias sob um calor absurdo, a 100 metros da pousada onde ficaria, ao atravessar a duna que a antecede, quase deixou a moto cair. Quando viu o pessoal correr para ajudá-lo (Segura aí, segura o cara!), “Eu me agarrei ao meu último fiapo de energia e dignidade e me recusei a cair na porta da pousada”. E conseguiu evitar a queda e fazer o check-in na Pousada d’Areia:

Aparentemente por causa do cansaço, ele se apaixonou pela orla do rio Preguiças, que banha Barreirinhas:

No dia seguinte, comprou o passeio de van para Atins e foi conhecer os Lençóis Maranhenses:

Voltou encantado e caiu matando na gastronomia de Barreirinhas, onde ficou por três dias.

Ao final, varou para Parnaíba via Paulino Neves (40 km de estrada de terra “administrável”) até Tutóia, onde retomou o asfalto, com obras e siga-pare até Parnaíba.

Eu gostei muito dessa foto que o Dênis nos enviou, da divisa entre o Maranhão e o Piauí. Primeiro, pelo claro orgulho de ir tão longe no interior do Brasil, com uma moto simples e sozinho. Segundo, por conta daquela lua, no céu azul e sem nuvens do sertão nordestino, que se intrometeu na foto, como papagaio de pirata do Dênis:

 

 

 

Entre Paulino Neves e Tutóia, encontrou um lugar chamado Pequenos Lençóis Maranhenses. Não resistiu e investiu algumas horas lá em banhos de lagoas e petiscos:

 

Chegou a Parnaíba sem problemas e a Luís Correia, sem queixas, exceto a sinalização deficiente ou inexistente:

Luís Correia é assim:

 

De Luís Correia, Dênis foi para Jericoacoara, no Ceará, As estradas continuam com a mesma avaliação: sem buracos, mas sem sinalização ou sinalização deficientes, impróprias para viagens noturnas, principalmente por causa dos animais soltos nas pistas. A rota sai de Luís Correia e cerca de 60 km, passa pelos acessos a Barra Grande e Cajueiro da Praia, que são paraísos litorâneos parecidos com Morro de São Paulo.

70 Km depois, em Granja, já no Ceará, pega-se a esquerda para uma estrada maravilhosa, irrepreensível segundo ele, e chega-se à cidade de Jijoca de Jericoacoara.

Dessa cidade, ele foi para Jericoacoara. Mas a experiência foi péssima e ele estava de MOTO. Atravessou dunas e areais que não recomenda para ninguém. Sua indicação é deixar o seu veículo em Jijoca (estacionamento a R$ 10,00 por dia) e pegar um transfer – que nomalmente é uma van ou um caminhãozinho 4 x 4 -, que te deixa na praia de Jeri por um preço que varia entre R$ 25,00 e R$ 50,00. A estrada de Luís Correia para Jericoacoara começa assim:

Na reta final, melhora sensivelmente. Ficou 3 dias em Jericoacoara – que dispensa comentários. Mas após o terceiro dia, ele descobriu uma filial do céu, um lugar chamado Lagoa Paraíso que é assim:

 

Ficou hospedado no Camping do Tião, que aluga chalés e tem um serviço e uma comida maravilhosa e…barata! Eis um prato individual, com 28 camarões e acompanhamentos, que custa R$ 22,00:

Acabou a temporada litoral norte do Nordeste. Agora, é começar a voltar para casa. O plano era dar uma passada em Petrolina, na volta para Brasília. A opinião pública local disse que não valia a pena. Tocou direto para casa, passou por Sobral e pernoitou em Crateús.  

No dia seguinte, desceu para Tauá, Picos, com pernoite em Floriano. O trecho de Crateús para Picos está muito ruim. Veja a situação entre Tauá e a divisa com Picos: 

 

E o calor é algo simplesmente aterrador. Acabou tendo de parar numa UPA-Unidade de Pronto Atendimento para obter soro, porque já sentia os efeitos da desidratação. Pernoite em Floriano (PI), com elogios à cidade, ao preço honesto da comida e da cerveja. No dia seguinte, desceu para pernoitar em Corrente, a 623 km de Floriano. Mas o calor o traiu. Eu havia pedido para ele dar um rápido giro em Cristiano Castro, 40 km antes de Bom Jesus, porque um “sputnik” nos havia informado de uma espécie de estância de águas minerais jorrantes naquela cidadezinha. Ele chegou a Cristiano Castro para um “giro”, mas a desidratação, o calor e o cansaço e o charme do lugar fizeram-no mudar de ideia. Pernoitou lá, curtindo ao máximo as piscinas. Algumas fotos de Cristiano Castro:

 

 

 

No dia seguinte, rodou 680 km para passar por Barreiras e Luís Eduardo Magalhães e pernoitar em Roda Velha, para rever o Fael, um velho amigo e um motociclista de verdade.

Por volta das 14 horas, estava entrando no portão da roça, onde o estávamos esperando com o colo da mãe, o amor do pai e do irmão, o carinho da cunhada e a festa de recepção dos nossos 11 cães, aos quais se juntaram o Bud (pug), o Fred (chiuhuahua) e o Azzaro (Shitzu), que são dele, mas ficaram aqui conosco quando ele partiu. Pura festa. Bom demais!

Edimar Rodrigues de Abreu, com revisão de meu filho Dênis Silva de Abreu – 29.10.2018

 

 

 

 

  

 

 

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3 Comments on “BRASÍLIA-LENÇÓIS MARANHENSES-LUÍS CORREIA-JERICOACOARA DE MOTO

  1. Sensacional!!! Estou planejando essa viagem para o fim do ano agora.
    Pretendo sair de Brasília e fazer esse trajeto até Jericoacoara. Depois sigo até Natal e desço o nordeste pelo litoral até Vitória/ES.

    Prarabéns! Abraços.

    1. Olá, Marcelo. Bem-vindo ao blog e obrigado pela força que suas palavras dão para o nosso trabalho. Imagino que você vá fazer essa viagem de carro, não é? Meu filho Dênis é fanático por motociclismo, fez essa viagem,voltou, passou uns dias aqui conosco na roça, e emendou outra viagem logo em seguida (“resto das férias”, disse ele) para Santo Cristo, lá na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina, onde iria participar de um encontro nacional de motos XRE. Conheceu o território das Missões, atravessou para Posadas, na Argentina e, de lá, cortou por dentro do Paraguai e saiu em Foz do Iguaçu. De lá foi para Cascavel e em seguida Curitiba, de onde desceu a serra para a Ilha do Mel, Morretes e subiu a Serra da Graciosa, pernoitou em Jundiaí e depois em Uberlândia, chegou aqui na roça no sábado e voltou ao trabalho anteontem. Em pouco mais de um mês, ele rodou mais de 13.000 km, passou por 10 Estados no Brasil e mais dois países DE MOTO! Ou seja, é outro mundo. Nosso mundo aqui está mais voltado para viagens de carro feitas por famílias, com calma, sem estafa, sem estresse, com o máximo de conforto, segurança e emoções não tão fortes. Assim, lembramos a você que não há necessidade de pegar a Belém-Brasília, como ele fez. Basta subir de Brasília para Barreiras e de lá para Bom Jesus, Floriano e Teresina(PI), de onde você subirá para Barreirinhas e os Lençóis Maranhenses. Essa rota está descrita aqui mesmo no blog. Você chegou até nós pelo post “Brasília-Lençóis Maranhenses-Luís Correia-Jericoacoara de moto”, publicado em nosso site http://www.expressaodaliberdade.com.br, na aba “Rodovias Brasileiras”, onde também estão publicados outros posts nossos que podem ser do seu interesse, como, por exemplo, o “Brasília-Teresina-Fortaleza de carro”, no qual detalhamos essa rota que acabamos de citar, bem como o “Brasília-Salvador-Natal de carro”, que descreve o seu retorno a partir de Natal até Salvador” e o “Rio de Janeiro-Salvador de carro”, que orienta sobre o trecho Salvador-Vitória(ES). E não deixe de ler, na mesma aba “Rodovias Brasileiras”, o post “Manual de sobrevivência em viagens de férias nas rodovias brasileiras”, que traz uma série de informações e dicas interessantes para quem viaja por essas bandas. Não deixe de dar uma lidinha lá, OK? Marcelo, se restarem dúvidas, retorne: será um prazer ajudá-lo a ir e voltar em paz e segurança.
      Um grande abraço.
      Abreu