O DNA DA CRISE FINANCEIRA MUNDIAL

outubro 11, 2008 Abreu No comments exist

           

                                                                                 

            Daqui da minha cadeira de balanço, na varanda da casa da roça, perdido no meio do cerrado do Planalto Central, faço a pergunta que milhões de pessoas estão fazendo pelo mundo afora:- “Como pudemos deixar acontecer uma crise financeira global de tamanhas proporções?”

            As primeiras chuvas que caíram nesta semana reverdejaram o cerrado. A grama e o capim renasceram vibrantes. Os passarinhos comemoram.

            A crise das hipotecas americanas, que tira o sono do mundo, está caracterizada como uma crise financeira. Mas não é apenas isso: é uma crise político-ideológica, com forte componente geopolítica. Na verdade, o que está em jogo é o papel dos Estados Unidos como nação líder dessa Arca de Noé global.

            Não é apropriado que cada país, neste momento, busque dentro de sua economia onde foi que errou: a culpa de nosotros é a mesma daquele japonês que puxou a cordinha da descarga do vaso sanitário no momento em que a bomba atômica de Hiroxima explodiu. A raiz da crise não está aqui, da mesma forma que a tal cordinha não era o disparador da bomba A.

            Meus cachorros se aproximam para a sessão lambe-lambe. Amontoam-se sobre mim: Rodin, Joan Miró e Nega (labradores), Pagu (dogue alemão), Brad Pitt (Jack Russel paraguaio) e Barack Obama  (pinscher). Dou uma baforada de cachimbo em cima da cachorrada, para diminuir o rebuliço e botar ordem na casa.

            – Parem! Estou refletindo sobre a crise mundial e desse jeito não dá!

Miró, o lambedor-mor, pondera:

            – Não há sobre o que refletir. O problema é essa coleira gigante que prende todos os países do mundo e que se chama dólar.

            Rodin, o labrador caramelo, coloca a mão no queixo e pensa alto:

            – Impressionante como as pessoas criam um mito e passam a acreditar que ele existe de fato! O dólar é um gnomo – e verde!

            Catarina, a coruja que voltou semana passada – como faz todos os anos, em outubro – para fazer o ninho na casa de passarinho em frente à minha cadeira de balanço, provoca:

            – Se os países fizessem uma sessão de psicanálise, voltassem no tempo e recordassem como o dólar transformou-se em moeda mundial, quebrava-se o encanto e as soluções surgiriam naturalmente.

            Pagu, a gigante de coração doce e olhar assassino, foi direta e taxativa:

            – Os americanos impuseram ao mundo sua moeda, em 1944, na Conferência de Bretton Woods, com base em quatro argumentos demolidores: a) o dólar era lastreado em ouro e os Estados Unidos detinham 80% das reservas mundiais do metal: b) os Estados Unidos produziam 52% do Produto Mundial Bruto; c) os Estados Unidos tinham o exército mais poderoso do mundo e era o grande vitorioso na Guerra, principalmente depois do dia “D”, na Normandia; d) os Estados Unidos eram a única nação do mundo a possuir a bomba atômica.

            Daqui de cima, posso ver um pedaço do riachinho. Suas águas cristalinas correm mansas para o mar, numa placidez impressionante. Quem diria que, lá por fevereiro ou março, na época das cheias, ele se tornará um turbilhão de águas barrentas e revoltas, com jeito de tsunami caboclo…

            Miró retoma a palavra:

            – E hoje? Os Estados Unidos extinguiram o lastro de ouro do dólar, em 1971. Sem lastro, o dólar é uma moeda como qualquer outra – papel pintado, que o Bush imprime na quantidade que julgar conveniente! E a participação americana no PIB mundial? Caiu de 52% para 20%. E a potência militar americana? Depois de 1945, não conseguiu terminar uma guerra que seja, uma mísera guerra: A Coréia continua lá, dividida; o Vietnã dispensa comentários; em Cuba, aquela base de Guantánamo é uma esfinge – nem invade, nem desiste. Nem casa, nem desocupa a noiva. E lá estão os talibãs – vivinhos da silva –  agindo no Afeganistão. Além do inferno infindável do Iraque. Exército vitorioso? Tenho dúvidas. E a bomba atômica? A única nação que a possuía em 1944, hoje divide essa prerrogativa com a França, a Rússia, a Inglaterra, a Alemanha, Israel, a Índia, o Paquistão e sabe-se lá mais quem… E olha que a Coréia do Norte e o Irã estão na fila…

            O chefe do bando de macacos – que todo dia a essa hora vem buscar sua ração diária de bananas – e tem de ser banana prata, nem verde, nem madura demais – grita de cima do mourão da cerca:

            – Se todas as razões que levaram à adoção do dólar como moeda mundial acabaram, por que essa situação continua?

            Barack Obama, o pinscher negro, arrisca:

            – Ninguém sabe. Mas é a pergunta que se devem estar fazendo a China, que tem 2 trilhões de dólares em títulos do Tesouro Americano (T.Bills, ou cheques pré-datados, para os íntimos) e o Japão, com 3 trilhões de dólares desse mesmo papel.

            E Miró, pragmático:

            – Podemos retomar a sessão de lambe-lambe?

                                                                                               (Edimar Abreu, 10.10.2008)

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